Não tropece

Nossa mente e nosso corpo foram programados durante milhares de anos a responderem com rapidez a quaisquer estímulos externos recebidos. Em um ambiente selvagem, onde tudo e todos conspiravam para tomar o nosso lugar, nos machucarem, ou até mesmo nos jantarem, a velocidade de reação sempre foi um fator importante para a nossa sobrevivência.

É natural portanto que ainda hoje as respostas instintivas - simples, rápidas e não processadas - dominem a maioria das nossas interações, causando uma série de prejuízos de âmbito individual e coletivo, sendo apontadas como um dos principais impeditivos para a nossa evolução como seres humanos e como sociedade civilizada. Brigar, correr ou esconder-se são respostas insuficientes para superarmos os desafios atuais, cada vez mais complexos e subjetivos, os quais exigem reações mais elaboradas e racionais.

Com a queda dos regimes totalitários, a popularização dos meios de transporte, e os avanços tecnológicos, caem por terra as fronteiras, propiciando a livre movimentação, física e virtual, de indivíduos e organizações, que levam consigo seus hábitos, costumes, e influências culturais. O mundo não apenas se tornou menor, como também mais diverso e transparente, provocando e demandando avanços em todos os setores das relações humanas, principalmente naqueles ligados à comunicação.

Acontece que praticar uma boa comunicação não se trata apenas de dominar a sua técnica, conseguindo se expressar de maneira clara, e objetiva, mas também de conhecer as suas estratégias e táticas, conduzindo as interações em direção ao entendimento, ao equilíbrio, e, ao objetivo mais importante, à cooperação. Fundamentalmente não se trata aqui de estabelecer vencedores e vencidos, mas sim de nos tornarmos melhores pais, colegas, líderes, e seres humanos.

Neste sentido, um dos maiores erros possíveis de se cometer é simplificarmos as interações, esquecendo que elas sempre envolvem componentes emocionais. Procurar identificá-los com brevidade, nos ajuda a conduzir as interações de forma que as emoções não sejam nem desconsideradas ou menosprezadas, propiciando o respeito entre as partes envolvidas, evitando que tomemos atitudes extremistas, e, desta forma, ampliando as nossas opções.

A carga emocional de algumas interações podem facilmente nos desestabilizar, fazendo-nos tropeçar em qualquer pedra posta no nosso caminho, por isso convém verificarmos com clareza onde estamos vulneráveis e como reagimos. Medo, raiva e constrangimento são as emoções primárias que nos fazem reagir com mais violência, nos retirando de qualquer entendimento possível, e que devem ser sondadas e trabalhadas no nosso íntimo, e à todo custo evitadas de serem provocadas nos nossos interlocutores.

Uma mentalidade de combate acaba transformando as interações em verdadeiras operações de guerra, repletas de barreiras, armadilhas, campos minados, e emboscadas, nos fechando para quaisquer possibilidades de entendimento, e trazendo à tona nossas reações instintivas mais primitivas. Manter a mente aberta, abandonar quaisquer preconceitos, evitar prejulgamentos, afastar-se da negação, exercitar o perdão, adotar um discurso moderado e tom neutro, ater-se aos objetivos previamente definidos, e buscar um meio-termo que seja satisfatório são apenas algumas das ações que devem ser incluídas em todas as nossas interações.

Interessante que Daniel H. Pink, no seu novo livro “Quando”, defende que não somente a forma como nos comunicamos, mas também quando elas acontecem influenciam diretamente no resultado das nossas interações. Segundo ele, todo ser humano possui um relógio biológico, um marcador interno de tempo que desempenha um papel essencial no funcionamento adequado do nosso organismo, determinando o nosso ritmo diário. A maior parte das pessoas segue um ritmo semelhante, possuindo um pico durante a manhã, uma baixa no começo da tarde, e uma retomada no começo da noite.

Em momentos de pico e de retomada estamos mais alertas, e propensos a expressar emoções positivas como as de entusiasmo e confiança, já no momento de baixa nos tornarmos mais letárgicos e as emoções negativas aparecem, como as de raiva e culpa. Desta forma, Pink sugere que procuremos o período da manhã para executarmos quaisquer ações ligadas à comunicação, como apresentar resultados, fazer reuniões, e passar feedbacks, e ainda reforça que evitemos a todo custo sermos interrompidos nos momentos de pico, e de tomar decisões importantes nos momentos de baixa.

Na era da informação saber comunicar-se torna-se cada vez mais relevante para o progresso da nossa sociedade, exigindo-se que esta ferramenta, com as suas mais variadas formas de expressão, seja explorada com mais profundidade pelo setor educacional. Contudo percebe-se que compreender a comunicação não é um assunto fácil, revelando muitos aspectos que somente agora começam a ser melhor explicados há medida que se tornam objeto de mais pesquisas científicas na área. Na dúvida, é mais seguro seguir sempre a recomendação do provérbio chinês, de ater-se às idéias, evitando abordar acontecimentos e pessoas em qualquer interação.

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